Minha dor, meu relato, minha página virada

Por Jerfferson Medeiros

Há pouco mais de seis anos tive algumas das maiores provações que até então havia vivenciado. Tudo começou com o cansaço físico, mental e um sangramento em um de meus olhos. Após a absorção do sangue, uma tarde que não hei de esquecer, era como se todos meus pensamentos se movessem, rodopiassem, como se minha mente se desprendesse de meu corpo. Então veio a confusão mental, vieram alguns sintomas secundários, como falta de ar, dormências, fraqueza física e descontrole emocional.

Temi, por achar que estava louco, uma vez que não conseguia compreender alguns significados básicos, não conseguia concluir uma frase sequer, por mais simplória que fosse, porque as palavras não encaixavam, não se complementavam e não via sentido em nada daquilo. Um dia a ser esquecido, porque mexeu com toda minha família, causando grande aflição. Aí, minha vida começava a mudar… Muitos afastamentos, alguns que não acreditava, incompreensões, tristeza, maus pensamentos, ruínas e via, ainda que de longe, o fundo de um poço, o meu. Era a depressão!

Além disso, em meio a todas essas más novidades, fui vítima de um grande boicote! E você(s) sabe(m) qual o poder e a força de um boicote? É devastador! Eu, influenciado por tanta confusão e por tantas sombras, comecei a me boicotar, a me achar menos, menor, insignificante, feio aos olhos de tudo e todos. Comecei a minar meus sonhos, meus hobbies, minhas alegrias. Passei a ressignificar minha dor, alimentando-a, dando-lhe forças bem superiores às minhas.

Quando me vi perdido e sequer me reconhecia em meu próprio reflexo, passei a me machucar ainda mais, dessa vez de outras formas, porque a dor física, naqueles instantes, me fazia lembrar que ainda existia vida naquele corpo decadente, naquela alma quebrantada. Eu estava em ruínas! As vozes e os fantasmas, não satisfeitos, me causavam pânico, pediam constante e insistentemente para que eu libertasse aquele espírito rodeado por ruínas…

Assim como uma onda, que vem e, a depender de seu tamanho e força, arrasa e arrasta tudo, outros começaram a ser atingidos por minha tristeza infinita. Eu não conseguia sorrir, comecei a machucar, ainda que involuntariamente, tantas pessoas, tantos amores. Foi então que, metaforicamente falando, vi luz além daquela prisão tão sombria e tenebrosa. Aquilo me guiou e insistiu pra que eu me levantasse e quebrasse tantas correntes…Dei passos, sempre para frente.

Insisti e lutei incessantemente contra aquilo, apeguei-me às minhas crenças, medicamentos, terapias, pouquíssimos amigos, alguns familiares. Cada dia era um martírio, como doía, a rotina se estabelecera, perdi muito, perdi muitos e não compreendia os porquês. Minha vida dava ainda mais sinais de fragilidade, porque não queria se manter nesse plano. Fui assombrado por visões, vozes, sensações, medos, e quanto mais me via só, frágil, mais minha fé se mantinha firme, me sustentando e me lembrando que aquilo ia passar.

Então, me foi dada a dádiva de recomeçar e, para isso, abri mão do que me restara, voltei para casa. Passaram-se dias, meses, um ano, e foquei no tratamento, estreitei, ainda mais, meus laços com Deus, me cuidei, me priorizei e hoje, já não dependente de alguns medicamentos, ainda tento sufocar a depressão, que não me domina mais. Compreendi muito do que passei, percebi que muitos dos afastamentos, ausências, silêncios, desculpas, eram orquestrados por um alguém poderoso, que talvez estivesse cuidando de mim, ajudando a reconstruir uma redoma invisível que sempre esteve em volta de mim. Deus me mostrou quem eram meus amigos, meus irmãos.

Hoje estou muito melhor e por isso compartilho essa história.

Minha dor, meu relato, minha página virada

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